Tombados em Valença
Patrimônio de cidade do Sul Fluminense inclui imóveis do tempo do Império, construídos pelos barões do café
Rico em café, depois em leite e agora em história. Numa das mais importantes ações de preservação do patrimônio histórico do interior do estado, a Secretaria estadual de Cultura, através do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), vai tombar e preservar de uma só vez 134 imóveis, conjuntos e riquezas arquitetônicas de Valença, no Sul Fluminense.
Na realidade, por causa da tutela de imóveis que ficam no entorno dos bens tombados e preservados, o número de bens protegidos pelo estado subirá para cerca de 300. Apenas dois municípios, como Paraty e Petrópolis, receberam atenção especial. Mesmo assim, tiveram seus imóveis, em sua grande maioria, preservados pelo Iphan, órgão federal. Quase dois séculos depois de sua construção, a Catedral de Nossa Senhora da Glória, um marco na cidade, será entregue totalmente restaurada.
Inventário de bens a serem tombados tem 600 páginas
A 12 de dezembro, Dia de Nossa Senhora de Guadalupe, uma grande cerimônia religiosa e várias festividades estão marcadas para a devolução da Catedral, que é o símbolo do município. Neste dia é que deverá ser anunciado o tombamento dos 134 imóveis que constam de um inventário de 600 páginas. Cuidadoso, o trabalho, feito pelos técnicos de Valença e do Rio, é um dos mais bem feitos catálogos de bens imóveis do estado.
O processo, com todas as informações sobre as construções e estado em que se encontra hoje, já está no Palácio Guanabara esperando a sanção da governadora Rosinha Matheus. Depois disso, vai virar realidade. Com isso, os imóveis protegidos ficarão livres do fantasma da destruição, como aconteceu no mês passado com a Fazenda Campo Alegre, uma das mais importantes da região.
O tombamento vai inaugurar um programa em desenvolvimento no Inepac de preservação dos centros históricos de cidades fluminenses. As ações de preservação farão com que o Inepac, órgão de preservação do estado, saia do marasmo em que se encontrava e consolide o turismo histórico e arquitetônico.
O café lançou as bases para o crescimento da antiga aldeia (1789), depois vila (1826) e, então, cidade (1857). Tendo por base a mão-de-obra escrava, Valença chegou a ter a maior população negra da província, e teve na Abolição da Escravatura um duro golpe em sua economia. Depois, se levantou com as atividades pecuárias, principalmente a voltada para a produção de leite. Hoje tem como ponto forte a indústria têxtil.
Por causa da riqueza gerada pelos ricos senhores da terra e com a vinda da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, vários fatores contribuíram para o crescimento cultural de Valença. A beleza e a imponência das construções, principalmente os detalhes tipicamente europeus, contribuíram para que o grande acervo arquitetônico de Valença seja agora reconhecido e preservado.
O secretário estadual de Cultura, Arnaldo Niskier, vê, no tombamento que se inicia em Valença, a grande virada para que o governo estadual recupere e preserve os verdadeiros tesouros espalhados pelo interior do estado que, até então, se não estão abandonados, estão esquecidos:
— Buscamos a preservação de um estado que é riquíssimo por causa até de sua posição diante do Império e da República. Nós vamos fazer do ano que vem o ano de ouro do patrimônio histórico e artístico.
Cemitério de Valença também será tombado
Niskier anunciou que já está sendo feito um levantamento criterioso sobre os quilombos existentes e o município de Magé deverá ser o próximo a ser contemplado com o tombamento e preservação de mobiliários, fazendas e Igrejas de fases importantes. O tombamento proposto sugere a preservação do conjunto arquitetônico que fica no Centro de Valença, formado pela Praça Paulo de Frontin, a antiga sede da estação da Rede Ferroviária Federal, hoje atual Rodoviária Princesa da Serra, as antigas oficinas e escritórios da RFFSA e o Hotel Valenciano. Construído em 1914, o prédio da antiga estação ferroviária, em estilo neoclássico, tem uma assinatura de peso: a de Antonio Januzzi, o mesmo que abriu a antiga Avenida Central, atual Rio Branco. Tem-se ali o Hotel Valenciano, uma belíssima construção em estilo renascentista.
Branca Ribeiro Figueira, diretora do Serviço do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Valença, classifica o tombamento dos imóveis do século XIX e de rica arquitetura como de suma importância. Para ela, a cidade, carente de legislação urbanística, passará a ter um instrumento maior, a partir da preservação prevista para o mês que vem:
— É um acervo importante e de rara beleza.
No pedido de tombamento, alguns bens se destacam. Entre eles o tombamento do Cemitério do Riachuelo, construído em 1854. A capela original tem cunhais em cantaria e porta principal em madeira. Possui alguns túmulos em estilo gótico sendo os dois maiores e mais importantes os mausoléus do Visconde de Ipiabas e do Visconde do Rio Preto. Outro que se destaca é o túmulo da família Pentagna. O cemitério tem histórias interessantes. Originalmente, ele era dividido em duas partes: uma para o enterro de pessoas pobres e outra para pessoas abastadas. Tanto que os portões eram separados. Em 1878 e com o crescimento da cidade, surgiu a necessidade de ampliação. Passou a ter uma área para não católicos e suicidas.
O GLOBO - 21/11/2004